Um toque de Middas

A cachaça Middas é destaque no cenário de destilados. Garimpando prêmios ao redor do mundo, hoje ela ocupa a nona posição do ranking das melhores cachaças nacionais. Leandro Dias fundador da marca, conta como a cachaça rompeu a barreira da popularidade e ficou conhecida como artigo de luxo.

 

Em 2011 quando morava em Toronto, Canadá, ele percebeu a tendência do ouro em alimentos. Anos antes na adolescência, a lembrança da mercearia dos avós, o balcão e a cachaça servida ali. De volta a 2011 o start de uma ideia que hoje se tornou um negócio pra lá de promissor, a Cachaça Middas.

Leandro Dias, 34 anos, CEO da empresa, uniu a percepção de um material inusitado no ramo alimentício como o ouro à memória afetiva do destilado nacional para criar a cachaça com flocos de ouro comestível de 23 quilates, importado da Alemanha.

Genuinamente nacional, a cachaça sempre esteve presente na história do nosso país. Ela começa a ganhar vida por aqui quando os portugueses trouxeram consigo a cana-de-açúcar da Ilha da Madeira e as técnicas que utilizavam para produzir um destilado de uva chamado bagaceira. A descoberta da cachaça aconteceu por volta de 1532 e desde então ela acompanha nosso cenário econômico e cultural.

“A cachaça hoje é uma bebida altamente premiada internacionalmente”.

A princípio a bebida era destinada apenas aos escravos, mas logo caiu no gosto popular, proliferando assim sua produção pelo território nacional, principalmente por São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Por ter uma raiz tão popular, por muito tempo a cachaça foi vista com certo preconceito principalmente pelos próprios brasileiros. “É interessante notar, por exemplo, que fora do nosso país a aguardente sempre foi mais valorizada, mas nós estávamos habituados a relacionar a cachaça apenas àquele produto sem qualidade, servido nos botequins a fora”, conta Dias.

Por aqui outros tipos de destilados como Whisky e Vodka acabaram roubando a cena durante muito tempo. Porém ao longo dos anos, com o avanço e o aumento da qualidade no processo de fabricação da cachaça, a bebida finalmente começa a alcançar lugar de destaque no cenário nacional.

E cachaça de alambique, vinda de um processo manual em que o caldo da cana é fermentado de forma lenta e controlada, assegurando dessa maneira uma bebida sensorialmente mais rica e de qualidade tem conquistado seu lugar no mercado.


A percepção de que a cachaça era apreciada no exterior e lá vendida a preços elevados e a entrada de cachaças de qualidade nas cartas de bebidas de diversos restaurantes foram fatores que contribuíram para que ela caísse no gosto, por assim dizer, de todas as camadas da população. Tanto que hoje, segundo nosso entrevistado, a bebida não deixa nada a desejar quando comparada a qualquer outro tipo de destilado.

“A pinga é mundialmente idolatrada. Sempre gostei de cachaça por que eu sabia que ela poderia ser tão boa ou até melhor do que qualquer outro destilado do mundo”.
Leandro conta que nos últimos 10 anos surgiu um movimento forte no mercado de cachaça para aprimorar as técnicas de produção e elevar a qualidade da bebida, utilizando leveduras selecionadas com etapas de destilação muito bem feitas.

“A cachaça hoje é uma bebida altamente premiada internacionalmente”, afirma.
A ideia da Middas – que a propósito leva o nome de um rei da mitologia grega, Rei Midas, aquele que transformava tudo o que tocava em ouro – surgiu quando o empresário foi para o Canadá estudar inglês e um curso de negócios.

Ele conta que sempre manteve a cabeça voltada ao empreendedorismo e no período em que morou no exterior observou que o uso do ouro comestível era uma tendência por lá. Chefs renomados usavam o material em seus pratos e o ouro também estava presente em bebidas e sobremesas.

Apreciador do produto nacional, durante suas viagens experimentou diversos tipos de cachaças e percebendo seu grande potencial para o mercado, resolveu dar início ao projeto de desenvolver uma cachaça que pudesse ser considerada uma bebida sofisticada. Foi então que estes dois elementos, cachaça e flocos de ouro comestível se encontraram.
“Vi todo esse movimento do consumo do ouro no Canadá e queria levar isso para o brasileiro”, conta. Leandro, começou então a escrever o plano de negócios da Middas e em maio de 2014, colocou a primeira garrafa do destilado no mercado.

 

“Nós entramos em lugares que a cachaça jamais tinha entrado. Um exemplo foi o evento dentro da loja da Ferrari em São Paulo para receber o novo Cônsul da Itália no Brasil, onde a Middas era servida para degustação”.

A estratégia de marketing da marca faz com que a Middas tenha toda uma simbologia. O próprio consumidor finaliza o processo de produção da bebida adicionando o ouro, que vem separado do líquido, à cachaça.

“Neste caso é o apreciador da bebida que dá o toque de Midas adicionando os flocos de ouro. Essa foi uma forma que encontramos de fazer o consumidor participar de um dos processos de finalização da cachaça”.

Segundo o empreendedor todo o conceito da marca foi bem aceito e movimentou o setor do destilado nacional. “Nós entramos em lugares que a cachaça jamais tinha entrado. Um exemplo foi o evento dentro da loja da Ferrari em São Paulo para receber o novo Cônsul da Itália no Brasil, onde a Middas era servida para degustação. Escutei do dono da loja que aquela era a primeira vez que uma cachaça tinha entrado em um evento dele e que a Middas tinha superado as expectativas”.

Nascido em Adamantina, Leandro escolheu sua região de origem para produzir a cachaça que desenvolveu. A fabricação da bebida é terceirizada e realizada em Dracena-SP, pela Destilaria Vitória. “O grande motivo de escolher Dracena para produzir a cachaça é porque é minha região, minha família é de Adamantina. Essa região da Nova Alta Paulista é escassa em cachaças, temos um único alambique num raio aproximado de 100 quilômetros”.

Na destilaria várias marcas de cachaça dividem o mesmo espaço. Este sistema de negócios moderno e colaborativo é conhecido por Co-working, onde cada empresa tem uma quantidade de barris reservado. E dá andamento a seu processo individual de fermentação e envelhecimento.

Em um tour guiado pelo empresário, ele nos explica como são as etapas de elaboração da Middas. A equipe de reportagem da VOX acompanhou de perto todo o caminho de fabricação da bebida, desde a moenda, passando pela redução do brix, fermentação, destilação em alambiques de cobre, armazenamento e envelhecimento em barris de madeiras selecionadas e por fim o momento em que o líquido vai para o envase. Todos os procedimentos, inclusive o engarrafamento são realizados manualmente.

“O produto concebido desta forma tem outro valor, cada detalhe é acompanhado de perto em um processo manual e único. Os barris que usamos para o envelhecimento são importados e de primeiro uso, isso leva personalidade e qualidade ao produto final” explica.

A Nova Alta Paulista é conhecida pelo Brasil à fora como grande produtora de cana. Assim como o vinho a cachaça de cada região também tem um terroir que provem da localidade da cana-de-açúcar, matéria prima da bebida. A escolha do terroir de acordo com nosso entrevistado traz características próprias para o produto final.

“Nada mais justo do que eu escolher um local com uma biodiversidade nesse micro clima da região para produzir a Middas. Além do marketing, além do ouro, a qualidade do produto é importante e eu queria oferecer um produto sensorialmente diferente do que tem no mercado, utilizando das terras de onde eu vim e mostrar para o Brasil e para o mundo”, afirma.

Segundo o empresário que acompanha cada detalhe da produção mesmo morando em São Paulo, a terceirização da mão de obra permitiu que a empresa pudesse ter, em suas palavras, um formato mais enxuto.

“Hoje com uma empresa bem enxuta estamos voltados para o trabalho via internet. Moro em São Paulo e faço a gestão toda online ou por telefone. Tenho dois irmãos em Adamantina envolvidos no negócio, o Luciano que cuida da parte administrativa e logística, e o Alessandro responsável pela publicidade e mídias sociais”.

Sobre a gestão à distância ele conta que a tecnologia possibilita essa nova forma de fazer negócios. “Esse modelo estilo home office é extremamente interessante quando você tem softwares que ajudam a monitorar o que acontece. Hoje é tudo integrado, você não precisa estar lá presencialmente o tempo todo, claro que quando é preciso montar um blend eu vou até a destilaria em Dracena, quando preciso ver uma produção que está começando eu vou até o alambique, mas de uma forma geral eu consigo fazer tudo pelo celular ou computador em 95% das vezes”.

O destilado produzido no interior acumula premiações e rankings. Ele recebeu medalha de ouro no Miami Rum Festival, medalha de prata pelo New York International Spirits Competition, medalha de ouro no China Wine & Spirits Awards, entre outros. A lista de premiações da Middas é extensa e aqui no Brasil segundo a Cúpula da Cachaça, o maior concurso de cachaças do país, ela está entre as dez melhores do Brasil, ficando em 9º lugar no ranking.

A marca tem dois rótulos: a Middas Branca, uma cachaça de dois anos armazenada em barris de amendoim do campo, com uma tiragem anual aproximada em sete mil garrafas. E a Middas Reserva, envelhecida durante três anos em barris de Carvalho francês e americano, Jequitibá Rosa e Amburana, um blend exclusivo do proprietário Leandro Dias, com garrafas assinadas e numeradas que resulta em uma edição limitada com mil unidades.

Vale ressaltar que o empreendedorismo de Leandro não pára na cachaça Middas. Ele fundou com seu sócio, o jornalista especialista em cachaça João Almeida, a Escola da Cachaça, um curso online que explora o universo da bebida, o e-book Os Segredos da Cachaça. Eles estão nos preparativos para lançar um livro que leva o mesmo título, com previsão de chegada às livrarias de todo o Brasil em agosto de 2018.

Também lançaram um curso online de Home Destiling, o Mestre dos Destilados que ensina a produzir destilados de todos os tipos de maneira caseira. E em maio de 2018 colocaram no mercado o e-book intitulado Como Fazer Cachaça Em Casa: O Guia Completo.

A Middas é um exemplo de negócio que prova que o sucesso de uma marca não depende de um único fator. Segundo o jovem empresário um negócio de sucesso precisa unir qualidade e criatividade. O mais importante segundo Leandro em relação ao empreendedorismo é investir em algo que realmente goste e conheça.

“A vida do empreendedor é uma das mais loucas, existe muita pressão, problemas a serem resolvidos. Se a pessoa não tiver paixão pelo que faz desiste rápido”. Para quem tem o sonho do negócio próprio Leandro compartilha uma dica: “há mais chances de ser bem sucedido quando o foco não é exclusivamente o retorno financeiro”.

“Quando alguém abre um negócio apenas pelo dinheiro está fadado ao fracasso. As chances de alguém apaixonado pelo que faz obter o sucesso desejado são maiores. Então busque o que você ama, o retorno financeiro é consequência de um negócio bem feito”, conclui.

Maila Alves
Maila Alves

Editora/Jornalista

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