Beleza com propósito

Com as mudanças constantes da nossa sociedade os concursos de beleza também estão se reinventando e partem em busca de mulheres empoderadas que lutam por uma sociedade igualitária

Ao som de Feeling Good, de Nina Simone, cantora norte americana, lenda do jazz, negra e uma mulher muito à frente de seu tempo, entra no palco do Miss Brasil 2018, para se despedir de seu reinado Monalysa Alcântara. A despedida da miss veio com um discurso empoderado, sobre representatividade e o papel atual da mulher na sociedade.

Alguns meses antes, quando decidimos falar sobre a mulher moderna do universo miss pensamos muito sobre o significado da beleza nos dias atuais.

Do auge nos anos dourados ao quase esquecimento o concurso Miss Brasil já teve altos e baixos. Há mulheres que sonham em se tornar misses e outras que consideram o concurso uma forma de promover estereótipos femininos.

“A experiência de ser miss é maravilhosa, seja representando a cidade, o estado, país ou mundo. Uma miss é muito mais do que aparência ela deve estar apta para discursar sobre os mais variados assuntos”.

Vamos ser realistas, um concurso de beleza sempre vai ter como principal critério de escolha de suas candidatas a beleza, é um fato.

Mas nas últimas edições percebemos que esses concursos influenciados pelo momento atual estão usando outros critérios de escolha a partir de ideias, da forma como a candidata se comunica, pela história de vida. E dando espaço à voz da mulher e é sobre isso que queremos falar.

Vivemos em um tempo de representatividade, de aceitação e de busca por igualdade, nada mais justo do que o concurso que elege mulheres para representar a beleza do seu país acompanhar este momento. A mudança é lenta e está longe de ser o ideal, porém ela existe, e existe porque a mudança começou pela sociedade.

Queríamos falar sobre os concursos de beleza e suas candidatas sem nos pautar apenas no quesito estético, por isso resolvemos discutir este assunto por outra ótica, falando sobre mulheres que defendem a “beleza” com conteúdo e propósito, o empoderamento feminino e sobre a mulher contemporânea capaz de conquistar aquilo que estiver disposta seja num concurso de miss, no ambiente de trabalho ou pessoal.

As misses que carregam o nome dos nossos estados e país devem além de representar a beleza brasileira (algo impossível de se definir e impor um padrão), serem porta-vozes dos interesses do coletivo feminino.

Nossas entrevistadas, três mulheres de perfis diferentes, misses que representaram durante seus reinados as mulheres da região e ativas em seus papéis na sociedade contam suas experiências e compartilham suas opiniões sobre o tema em questão.

Mayra Simões, 34 anos, formada em Turismo, é a única mulher da nossa região a conquistar o título de Miss São Paulo, ela foi a ganhadora no concurso da edição 2004, e por ironia do destino foi inscrita de última hora.

MAYRA SIMÕES
“Nunca fui modelo profissional, quando recebi o convite foi um verdadeiro susto, não conhecia nada sobre esse mundo de miss.”


Quando tinha 19 anos, sem nenhuma pretensão ou sonho de seguir carreira de modelo recebeu o convite de Tiene Carvalho, na época coordenadora do Miss Dracena para participar do concurso e foi representar a cidade no Miss São Paulo, venceu e foi representar o estado no Miss Brasil. Este último ela não ganhou, mas recorda com carinho da época e experiência.

Nem mesmo ela imaginava que teria chances de ser coroada naquela noite. “Nunca fui modelo profissional, quando recebi o convite foi um verdadeiro susto, não conhecia nada sobre esse mundo de miss, eu tinha apenas um mês pra me preparar, mas fui. No final acabei vencendo o concurso, fui conhecendo mais sobre esse universo e me apaixonei. Apesar de ter sido algo inesperado e sem muita preparação o Miss São Paulo foi algo mágico que mudou o rumo da minha vida”, conta.

14 anos depois de ser eleita é ela quem coordena o concurso de beleza de Dracena e prepara as candidatas a misses.
Mayra explica que o perfil dos concursos mudou muito desde o seu reinado, com uma estrutura mais moderna e alcance cada vez maior com a disseminação da internet. O que acontece no evento gera mais repercussão agora do que alguns anos antes.

Um exemplo das mudanças vem da postura das candidatas, hoje mais preparadas para responder perguntas específicas que levantam questões como desigualdade de gênero, o papel da miss em um mundo de mulheres empoderadas e quebra de padrões de beleza. Nossa entrevistada acredita que isso se deve ao momento atual que estamos vivendo.

Sobre este momento ela afirma “as mulheres estão conquistando seu espaço, estamos mais empoderadas, ainda temos um longo caminho a percorrer em busca de igualdade, mas hoje, por exemplo, já existem vários casos onde a renda da mulher é a maior na família”.

As novas formas de comunicação quebraram diversos estereótipos femininos. Antes era como se existisse uma verdade universal, sobre o padrão estético e social da mulher. Agora com as redes sociais tudo ficou mais próximo, as mulheres vão se identificando entre si em diferentes grupos de interesses em comum.

As redes sociais além de unir pessoas de diferentes estilos e personalidades também é uma grande ferramenta que amplifica suas vozes. A repercussão de um comentário ou uma fala tem um alcance muito maior que antes.

Isabella Croccioli é um exemplo de mulher e miss conectada, uma verdadeira digital influencer, em suas redes sociais ela fala para mais de 600 mil pessoas. A jovem de 24 anos relata que o desejo de seguir na carreira de modelo vem desde a infância. “Quando era criança eu já tinha vontade de ser modelo e esse desejo sempre esteve presente na minha vida, sabia que era a profissão que seguiria. Em 2011, conquistei o Miss Dracena, mais um sonho realizado, andar numa passarela com uma coroa de miss”.

ISABELA CROCCIOLI
“Quando era criança eu já tinha vontade de ser modelo e esse desejo sempre esteve presente na minha vida”.


A miss garante que apesar do concurso ter aberto muitas portas para o trabalho ela é do tipo determinada, que corre atrás dos seus objetivos e cria as próprias oportunidades. Isabela diz que com tantos seguidores nas redes sociais uma de suas preocupações é mostrar uma vida real.

“Mostrar uma vida perfeita, com dias perfeitos é uma ilusão que não permite que as pessoas se conectem de verdade. Eu falo com os meus seguidores nos melhores e piores dias, sempre tomando certo cuidado porque sei que sou exemplo para algumas meninas, mas sou verdadeira e nas minhas redes falo sobre tudo”, afirma.

Quebrar a barreira do estereótipo sem criar novos estereótipos é o que defende a Miss Rancharia e Miss Mundo São Paulo 2017, Daniele Arruda. Segundo ela é importante que fique claro que não pode existir um padrão para definir a beleza. “Nosso Brasil é um país cheio de belezas de diferentes tipos, devido a fatores históricos como a vinda dos imigrantes que nos tornou um povo miscigenado, e acredito que precisamos romper o estereótipo sem que imponham novos padrões estéticos”.

Daniele é um desses casos de meninas que sempre sonharam em ser miss, mas conta que faltava coragem para se inscrever. No primeiro concurso de beleza que participou foi inscrita as escondidas pela irmã Eduarda Arruda (que, diga-se de passagem, entende tudo sobre o universo miss). Daí em diante Daniele entrou de vez para o mundo das passarelas.

Ela conta que a preparação de uma miss é intensa, e que as candidatas passam pelo menos uma semana confinadas em um hotel com os jurados onde são avaliadas todo o tempo. “Durante o confinamento além dos compromissos oficiais, os jurados observam nosso comportamento, a forma como nos comunicamos, nossa postura, entre outros requisitos. Isso acontece para não haver uma escolha superficial, costumo dizer que o dia do evento é um show onde as candidatas se apresentam para o público geral, mas os jurados já puderam analisar além da estética”, comenta.

DANIELE ARRUDA
“Acredito que precisamos romper o estereótipo sem que imponham novos padrões estéticos”.


Em suas redes sociais ela compartilha muito mais do que fotos pessoais e de trabalhos. “Além dos meus trabalhos e da minha rotina eu gosto de compartilhar citações e dicas de literatura brasileira, pois admiro muito nossa cultura. Estou sempre postando frases motivacionais, compartilho notícias e dou minha opinião e posição sobre política e o momento atual que o Brasil está passando, tenho essa consciência de transmitir conteúdo para os meus seguidores”. A miss almeja estudar medicina e continuar desenvolvendo os projetos sociais que iniciou durante o reinado.

“Ser mulher é ser mãe, é ser independente, ser política, ser médica, professora, filósofa e miss”.

Para as jovens que sonham em seguir a carreira de miss elas garantem que a preparação é fundamental. Mayra que coordena o concurso de beleza em Dracena e prepara as candidatas afirma que é preciso dedicação.

“A menina que sonha em se tornar miss precisa além de cuidar do corpo, com exercícios e alimentação balanceada, ouvir e confiar em seus preparadores. Não pode se deslumbrar com esse mundo e tem que manter os pés no chão. Mas a experiência de ser miss é maravilhosa, seja representando a cidade, o estado, país ou mundo. Uma miss é muito mais do que aparência. Ela deve estar apta para discursar sobre os mais variados assuntos. Talvez por conta dessa mudança no comportamento feminino uma miss hoje pode ir muito longe, engatar a partir daí outros trabalhos e hoje o futuro é mais adiante”, finaliza Mayra.

Essas três mulheres que compartilharam um pouco de suas histórias tem algo em comum, amam o que chamamos de universo miss, acreditam que mulheres não devem ser julgadas pela aparência ou ser estereotipadas pela beleza. E acima de tudo acreditam que hoje as mulheres podem chegar onde quiserem.

MONALYSA ALCÂNTARA NO MISS BRASIL 2018
“Agora eu quero falar em nome de todas as misses e todas as mulheres do Brasil, principalmente às mulheres negras como eu. Essa coroa me transformou na primeira piauiense a conquistar o Miss Brasil. Ela me conectou com uma vida nova e ampliou meus horizontes. Também me ajudou a superar muitas barreiras. Barreiras que nós, mulheres, enfrentamos todos os dias. O que é ser mulher? Nós precisamos transformar o conceito, ou o preconceito que cai sobre nós. Ser mulher é ser guerreira para lutar contra o machismo, contra o assédio, e contra a violência que nós sofremos diariamente.

Ser mulher é querer igualdade de salário e tratamento perante os homens. A única coisa que diferencia uma mulher de um homem no trabalho é a oportunidade. Ser mulher é ser deusa para espalhar nosso amor e poder. Ser mulher é ser mãe, é ser independente, ser política, ser médica, professora, filósofa e miss. Não somos objetos e nem propriedade de ninguém. Nosso corpo, nossa alma, nossas regras! Ser mulher é ser você mesma e é por isso que eu digo que toda mulher é uma rainha”. Monalysa Alcântara

Maila Alves
Maila Alves

Editora/Jornalista

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