De Adamantina para o mundo Anderson Vinícius Romanini

Quem se arrisca a sair de Adamantina tem sempre a mesma sensação – como temos adamantinenses espalhados pelo mundo. Cada qual com sua carreira, mais modesta ou de destaque, mas carregam consigo a Cidade Joia como referência em suas identidades.
Anderson Vinícius Romanini pode hoje não ser muito reconhecido em Adamantina, mas é mais um daqueles que nos enche de orgulho – desde sua carreira jornalística, tendo trabalhado na Editora Abril e, atualmente como professor da USP (Universidade de São Paulo), onde também obteve o seu título de Doutor em Comunicação.

Corintiano, jornalista e professor universitário, Vinicius Romanini chegou esse ano, aos seus 50 anos redondinhos de vida – o ano das revoltas e grandes manifestações políticas, não poderia então o seu caminho ser diferente. Completou meio século de teimosia, sonhos e lutas, teimosia essa herdada dos ancestrais italianos, assim como o encanto pela vida.

Depois de sair de Adamantina e iniciar sua vida em São Paulo, ele tem passagens por terras muito interessantes, tendo morado anteriormente em várias cidades da Itália, inclusive, trabalhando na Rádio do Vaticano.

Vinícius Romanini na redação da Veja (ed. Abril) em 1991

Seus pais, Octávio Romanini e Augusta Frare Romanini, conheceram-se e começaram a namorar em Osvaldo Cruz, cidade natal de Dona Augusta. Em meados da década de 60, era comum moços solteiros visitar cidades vizinhas nos finais de semana para “fazer a praça”, ou seja, para circular pela Praça da Igreja Matriz e paquerar. Dona Augusta iniciou a sua formação, como professora, depois de casada, e teve que unir a maternidade de três filhos com a escola, formatura, cursos de especialização e concursos públicos.

O pai de Vinicius, já era professor e começou a estudar Direito em Presidente Prudente, por isso passava noites fora de casa, deixando a mãe com os três filhos que nasceram em escadinha. Período difícil, que criou uma cumplicidade entre o casal que perdura até hoje.
“Nasci nesse ambiente professoral, com meus pais lecionando às vezes dois períodos, por algum tempo em escolas rurais. Foi uma infância feliz e com muitos estímulos, já que meus pais sempre gostaram de ter um pé na terra do sítio.

Juntando um pouco de herança e poupança, sempre tiveram ao menos uma chácara onde podíamos criar patos, galinhas, porcos, um cavalinho e algumas cabeças de gado, além de termos sempre uma horta e um pomar com muitas frutas. Nas férias escolares, viajávamos os cinco da família (meus pais, eu e meus irmãos Otávio e Gustavo) num Chevrolet Opala marrom, ano 74, ou muitas vezes pelos trilhos da antiga Fepasa. Sempre tivemos uma estante de livros, com muitas coleções e revistas (lembro-me do Reader´s Digest, por exemplo). Sempre li muito, cedo comecei a escrever poemas e a compor letras de músicas”, relembra Vinícius.

Segundo ele, foi a partir dos 15 anos que começou a publicar poemas numa seção do Jornal “O Adamantinense” chamada de “Cantinho do Estudante”. “Encantei-me com o ambiente do jornal e logo comecei a passar tardes ali como colaborador. Inicialmente encartava páginas e ajudava na composição procurando clichês, mas logo comecei a fazer pequenas reportagens sobre temas do cotidiano da cidade, estimulado pelo elétrico José Mario Toffoli e pelo ‘boa praça’ do Celestino” conta.

Infância adamantinense

Aos 16 anos, Vinícius já escrevia e editava longos textos e meses depois escrevia até os editoriais do jornal. Recebeu a carteira de jornalista aos 16 anos, e foi a São Paulo para cobrir o “Movimento das Diretas Já”, oportunidade em que se encontrou com Tancredo Neves. “Critiquei duramente a refutação da ‘Emenda das Diretas’, o que repercutiu até em Brasília e provocou um telefonema de setores da repressão ao Jornal. Foi meu último Editorial em “O Adamantinense”, mas continuei a escrever reportagens”.

Dentre as curiosidades de sua história está o PT – Partido dos Trabalhadores. Quando este lançou Lula candidato, Vinícius se envolvia com as propostas de um Socialismo Democrático, oportunidades iguais para todos os brasileiros, quando seu pai, Octávio, foi o primeiro candidato a prefeito do PT em Adamantina. “Tenho enorme orgulho disso”.
Ainda muito jovem em Adamantina, começou a ter conversas literárias com seus professores Alfredo Peixoto, Diretor da Fafia, e Gilson Parisoto, Diretor do Colégio Anglo. “Venci um Concurso de Poesias com o título: ‘Fruto do Capitalismo’, com uma crítica ácida à ganância e ao egoísmo”, conta com entusiasmo.

Participava de discussões políticas com o socialista e idealista Fausto Ramos, esposo da professora Ivone Ramos – ela também grande influência intelectual e afetiva. O jornal também o aproximou do vereador Galvão e do “grande líder político de toda uma geração de jovens adamantinenses”, Sérgio Gabriel Seixas. “Passei noites circulando pela cidade na velha caminhoneta do Sérgio Seixas, que era um insone inquieto, visitando obras e discutindo propostas para o futuro da cidade. Foi um enorme aprendizado”, relata.

Sua passagem, segundo ele, para a vida adulta foi quando foi receber o Prêmio Literário na capital do estado, que o levou a conhecer a Academia Juvenil de Artes (AJA), sediada na Biblioteca paulista. “Repliquei a ideia em Adamantina e logo começamos a juntar músicos, poetas, cantadores, pintores e atores em torno de uma companhia amadora de teatro.

O momento era abertura democrática, com um pé na ditadura e outro na esperança de democracia. Decidi escrever e montar uma peça de teatro que fosse uma alegoria dos tempos que vivíamos. Sempre tive muita vontade de participar das mudanças. Havia efervescência na Cultura, com Sérgio Genaro na Secretaria da Cultura e o sonhador Bira (primeira vítima fatal da Aids que conheci, num momento em que a doença se mostrava contagiosa e incurável) que trazia novidades.

Entre as amizades eternas que nasceram desse encontro cultural foi a de Maria Cristina Dias, companheira de muitos sonhos e, alguns anos mais tarde, sócia em empreendimentos jornalísticos e aventuras políticas noutras paragens”.

Ele e os colegas ainda montaram uma peça teatral do Grupo AJA Adamantina, que foi um grande sucesso local, digno de prêmios em concursos de teatro amador com a peça e com as músicas.

Logo depois foi selecionado para um Programa de intercâmbio pelo Rotary nos Estados Unidos – em Dallas, no Texas. “Havia decidido que precisava voar para que minhas asas continuassem a crescer. Aos 17 anos, emancipado as pressas, entrei num avião da Varig que aterrissou em plena nevasca. Primeira viagem internacional, o encontro com a neve, longe de Adamantina e sozinho. O tempo que lá fiquei, foi sem esquecer minhas raízes caipiras. Minhas crônicas das aventuras no Centro do Capitalismo Neoliberal, eram publicadas em ‘O Adamantinense’”.

Aos 16 anos, Vinícius já escrevia e editava longos textos e meses depois escrevia até os editoriais do jornal

“Tancredo Neves foi eleito para a presidência, mas morreu às vésperas de assumir o que fez de José Sarney, um presidente com pouca representação. Nos EUA, fiquei em Dallas, nos tempos de Reagan. Trabalhei como assistente de zelador e lavava chão de igreja.

Quando sobrava um dinheirinho, viajava pelos EUA. Fui a Washington, percorri toda a Califórnia e joguei nos cassinos de Las Vegas. Michael Jackson começava a fazer sucesso e Madonna se lançava ao estrelato. Com 17 anos, eu encarava esta aventura internacional, um tempo de amadurecimento e reflexão, para retornar ao Brasil e dar minha contribuição. Lembrar de tudo isto é uma volta e reviravolta no tempo. Anos intensos e felizes. Fui e serei sempre um lutador por um mundo melhor.”

O adamantinense, sempre muito reservado em relação à sua vida pessoal, é casado com Anna Paula Costa, desde 2014 e tem um casal de filhos, Clara Romanini e Pedro Romanini.

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