Palhaço mesmo

Fábio Bertassi (41), o “Parafina”, é palhaço mesmo! Mora em Osvaldo Cruz (SP) e faz do ofício do riso sua referência de vida. Ele busca nas reações do seu público a inspiração para levar adiante sua missão, capaz de promover emoções e sensibilizar sua plateia. Nos palcos e nos circos sem lona, por onde se apresenta, brilha a partir da sua própria luz.
Bertassi não teve uma trajetória de vida espetacular, como sonhou um dia. Porém, já é vitoriosa, e soube tirar lição de cada uma das provações que lhe foram apresentadas. Esse é seu maior show: um repertório vasto, construído de lágrimas e risos, que alimentam a sua fome na busca da realização e da consolidação profissional, e são combustíveis para enfrentar a longa estrada da vida, no grande espetáculo dos dias.
Nos palcos, divide a cena com seu filho, Gabriel Bertassi (8), o “Mixaria”. Na produção de bastidores e apoio incondicional, a mulher Christielle Rossateli Bertassi (30). E na trupe a pequena Vitória, uma filha especial, com Síndrome de Down, que chegou para costurar emoções e inspirar ainda mais os ideais de superação.

“Vivi o preconceito, a indiferença, a desinformação e o desconhecimento”, diz. “E Deus não dá nada de errado a alguém”, ensina.

Inspiração e superação
Bertassi viveu uma infância e adolescência difíceis, sobretudo nos anos 90. Um marco de dor e sofrimento, nessa época, foi o envolvimento do irmão com o uso de drogas, cujo drama envolveu toda a família. Lembra da imagem dos seus pais com vergonha, e a polícia na porta de casa. Em meio a esse ambiente, pouca coisa motivava o riso. Os circos que passavam pela cidade de Osvaldo Cruz, naquela época, se tornaram seu refúgio temporário.
Nos circos, se oferecia para ajudar, em qualquer tarefa que aparecesse, como limpeza, organização e até mesmo realizar vendas internas, para o público. O esforço era sempre para estar inserido no ambiente circense. E o centro do circo – o palhaço – era o que mais lhe chamava a atenção. “Eu saia da órbita”, sintetiza.
Entre um circo e outro que se instalava em Osvaldo Cruz, Bertassi perdeu o irmão, assassinado por conflitos e divergências no envolvimento com as drogas. E buscou refúgio na religião. Foi em um retiro espiritual que encontrou conforto para superar e seguir, e por meio dessa iniciativa, os jovens do retiro visitaram o lar dos velhos da cidade. Para animar os internos, se dispôs a pintar-se de palhaço, e fez isso pela primeira vez. Porém, ainda habitava um conflito, sem saber definir claramente se o vestir-se de palhaço era algo natural e espontâneo, ou algo para projetar uma felicidade artificial que, no fundo, não existia.

Os caminhos
Outra paixão de Fábio Bertassi é o universo do rodeio, e isso o levou a viajar por 13 estados brasileiros. Na bagagem, o sonho era ser locutor. E para transformá-lo em realidade, se dispôs inclusive ao trabalho pesado, montando as estruturas de ferragens, de arquibancadas e arenas.
Trabalhou também com publicidade volante, onde tinha a ajuda de um amigo. Com o carro, percorriam Osvaldo Cruz, Parapuã, Rinópolis e outras cidades da região. Ambos usavam roupas coloridas, e por onde passavam distribuíam balas. As características da dupla, a irreverência e a desenvoltura de ambos chamavam a atenção, e ajudaram a compor os personagens.
Isso fez surgir um primeiro trabalho como palhaços, em Adamantina, durante uma festa noturna, com temática country. Faziam um número “sombras”, e nasceu dessa experiência a confirmação pelo caminho circense. “Vi que queria mesmo ser palhaço”, recorda Bertassi.
Outro fator positivo e que ajudou a impulsionar foi a premiação recebida pela atuação na peça teatral “A vida em cena”, no Mapa Cultural Paulista, um concurso realizado pela Secretaria de Estado da Cultura, com direção de Denilson Biguete (Presidente Prudente). “Eu era o rei do improviso”, orgulha-se.
A partir daí iniciou-se uma trajetória de trabalhos em festas e eventos, o que continua até hoje, dentro de uma visão mais profissionalizada, sem perder a essência e a inspiração circense, nutridas pelas muitas atuações de palhaço que assistiu nos diversos circos que passaram pela cidade e região, pelas oficinas de capacitação, e pala ousadia de ocupar espaços cênicos e circenses com a grandeza e a capacidade de fazer sorrir.
Agora, diante de um novo desafio, lançou-se candidato a vereador em Osvaldo Cruz, pelo PV, sendo eleito. Vai assumir o mandato em 1º de janeiro.

Vida de palhaço
Hoje, Bertassi e família sobrevivem da atuação circense, nas arenas de rodeio pelo Brasil e nos palcos e espaços pela região. Isso permitiu unir duas paixões, e nelas, inseriu a mulher e os filhos. E o que era bico e complemento para a renda familiar do então instrutor de autoescola – sua antiga profissão – hoje sustenta os quatro na casa.
Nas arenas de rodeio, Bertassi canaliza a atenção do público para os números que divide com seu filho Gabriel, que sucedeu o outro filho do primeiro casamento, Guilherme Bertassi. Sem tirar o brilho de qualquer outro profissional do rodeio – seja locutor, tropeiro ou peão – o palhaço Parafina tem espaço de destaque. Muitas vezes, em uma atuação sem falas, usando apenas a expressão corporal, transmite claramente a emoção, a simplicidade e a pureza do palhaço, e dialoga em sintonia com a plateia.
Nos palcos, pela região, faz questão de destacar e preservar a imagem mais tradicional do palhaço circense. No espetáculo, a atuação do filho Gabriel chama a atenção. Com vinte dias de nascido, o bebê já era levado junto nas incursões artísticas pela região, cresceu nesse meio e tomou gosto pela coisa. Em alguns trabalhos que exigiam viagens longas, Bertassi precisava sair escondido de casa. Atualmente, mesmo com a participação do “palhaço filho” junto com o “palhaço pai”, a educação do pequeno Gabriel não é descuidada pelo casal.

Vitória, a filha especial
Há quase três anos, Fábio Bertassi e sua mulher Christielle foram surpreendidos com a chegada de uma nova filha, que se apresentou à vida em uma condição especial. Portadora da Síndrome de Down, a pequena Vitória carrega em si a força própria do nome. Especialmente amada pelos pais, família e amigos, a criança tem no sangue o DNA da desenvoltura e da desinibição. E mostra que chegou para brilhar.
Vitória nasceu em 10 de outubro de 2013, antevéspera do Dia das Crianças. Nesta data o palhaço é muito procurado, para eventos, atividades comunitárias e iniciativas comerciais. A descoberta da condição especial da filha foi algo que desestabilizou o “palhaço-pai”.
Bertassi escolheu o isolamento, pôs-se a questionar e pensou em desistir da carreira. Hoje reconhece a falta de informação sobre crianças especiais como um fator desencadeador de dramas e preconceito.
Na época, percebeu a indiferença e o distanciamento de algumas pessoas, decorrentes da condição especial da filha. “Vivi o preconceito, a indiferença, a desinformação e o desconhecimento”, diz. “E Deus não dá nada de errado a alguém”, ensina.
Mais sensibilizado, começou a enxergar a filha com naturalidade, reconhecendo claramente suas limitações, mas, sobretudo, reconhecendo sua figura humana, o que é maior e prevalece, diante de qualquer condição ou limitação.
Esse acontecimento em sua vida e a experiência vivida com sua filha especial levou Bertassi a militar ativamente na “Associação Síndrome de Down, uma nova visão”, em Osvaldo Cruz, que une pais com cenários comuns, e juntos, fortalecidos, buscam garantir espaços inclusivos para seus filhos, de acolhimento profissional nas áreas de educação, saúde e outras, e no fortalecimento de vínculos.

Sorriso: o grande tesouro
Bertassi fala com brilho nos olhos, sobre a condição do palhaço. “O palhaço tem uma força magnífica”, diz. “O que é mais gratificante é promover a alegria nas pessoas, e trazê-las para dentro do espetáculo”, completa.
Para ele, esse caminho é a apropriação de um dom missionário. “Muitas vezes o sorriso é o bem mais precioso do dia”, e esse tem sido o seu desafio, diante de uma ampla multidão que acompanha, reconhece e aplaude seu trabalho, hoje patrocinado pela Boots Horse Traias de Qualidade e grife Os Vaqueiros.

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